Naquela noite, supondo que seria noite, a estação de comboio, supondo que seria uma estação de comboios, estava ainda mais solitária. Deserta era o termo correcto se não contarmos com pombos, ratos e baratas que se escapavam a medida que os meus passos sonoros quebravam o silêncio que cobria a cidade. As linhas paralelas, aquelas longas vigas de ferro, eram ainda mais escuras do que haviam sempre sido, prolongando-se para lá do oásis de luz, luz morta da florescência que somente se pode chamar de luz por se opor as trevas que se estendiam para montante e jusante do assento que eu tomava. Assento frio, como tudo era frio naquela noite, o vento vinha de norte e entrava de rompante levando pelo ar solitárias folhas de jornal velho que com desproposito me vinham bater nas pernas.
estava ali, prostrado, frustrado, perdido…e como alto se ouvia o relógio a passar os segundos que eram longos minutos.
E como negras eram aquelas linhas, paralelas, rectas sem se cruzarem…seguindo, distando a medida certa da bitola, somente a distância de uma bitola, de um metro e qualquer coisa…para sempre condenadas a não se cruzarem.
Parou na minha frente, as portas abriram-se na minha frente, um corredor de luz, de luz viva, de calor…um tapete de luz.
Levantei o olhar, olhei…e não me mexi…
Com um ruido seco as portas fecharam-se, com um baque enorme e ensurdecedor, a luz ficará de novo fria, a máquina apitou, e começou a mexer-se, a andar, lentamente, a ganhar velocidade, levantando o ar, levando consigo o ar quente, relançado o frio sobre o banco onde me sentará. O ruido afastou-se, foi para frente, rumo ao futuro, tornou-se um ruido surdo, afastado, longínquo…
O vento frio voltava, mais forte, o silencio voltava, aconcheguei a velha camisola ao corpo, enrolei-me sobre mim mesmo, deitei-me no banco frio de ferro…e fiquei a espera…