As estações são assim, caso sejam de comboios ou de autocarros,
de aviões ou até de barcos. Tendem sempre a ser sítios isolados, solitários,
onde uma pessoa se encontra talvez consigo mesmo, ou tao somente só consigo
mesmo. Nunca se tem bem a noção se é dia ou noite, se é de manhã ou se já se
alcançou a tarde.
Naquela noite, supondo que seria noite, a estação de comboio, supondo que seria
uma estação de comboios, estava ainda mais solitária. Deserta era o termo
correcto se não contarmos com pombos, ratos e baratas que se escapavam a medida
que os meus passos sonoros quebravam o silêncio que cobria a cidade. As linhas
paralelas, aquelas longas vigas de ferro, eram ainda mais escuras do que haviam
sempre sido, prolongando-se para lá do oásis de luz, luz morta da florescência
que somente se pode chamar de luz por se opor as trevas que se estendiam para montante
e jusante do assento que eu tomava. Assento frio, como tudo era frio naquela
noite, o vento vinha de norte e entrava de rompante levando pelo ar solitárias
folhas de jornal velho que com desproposito me vinham bater nas pernas.
Ali estava, com frio, por fora e por dentro, com a certeza
que as linhas eram rectas, embora ao meu olhar se assemelhassem a duas grandes
curvas, curvavam nos aguçados gumes de um destino ausente, de um futuro que
fugia do espaço que era aquela estação….Para trás ficava o escuro passado, para
a frente as trevas do futuro. E o vento, esse fustigava cada vez mais, com cada
vez mais violência aquela cara, que ficando cada vez mais fria sentia cada vez
mais o gelo que lhe feria os olhos que se iam deixando mergulhar em pequenas
gotas de água salobra.
estava ali, prostrado, frustrado, perdido…e como alto se ouvia o relógio a
passar os segundos que eram longos minutos.
No fundo estações são assim, locais de espera, de longas ou
curtas esperas, de esperas de esperança ou de somente espera…
E como negras eram aquelas linhas, paralelas, rectas sem se cruzarem…seguindo,
distando a medida certa da bitola, somente a distância de uma bitola, de um
metro e qualquer coisa…para sempre condenadas a não se cruzarem.
E o vento trazia o som, o distante som de um comboio que
vinha, que surgia do lado do passado, iluminando as linhas que faiscavam pelo forte
foco, que estremeciam, vibraram sobre as rodas que freavam a longa composição
que irrompia como uma bolha de ar, ar quente.
Parou na minha frente, as portas abriram-se na minha frente, um corredor de
luz, de luz viva, de calor…um tapete de luz.
Levantei o olhar, olhei…e não me mexi…
Com um ruido seco as portas fecharam-se, com um baque enorme e ensurdecedor, a
luz ficará de novo fria, a máquina apitou, e começou a mexer-se, a andar,
lentamente, a ganhar velocidade, levantando o ar, levando consigo o ar quente,
relançado o frio sobre o banco onde me sentará. O ruido afastou-se, foi para
frente, rumo ao futuro, tornou-se um ruido surdo, afastado, longínquo…
O vento frio voltava, mais forte, o silencio voltava, aconcheguei a velha camisola
ao corpo, enrolei-me sobre mim mesmo, deitei-me no banco frio de ferro…e fiquei
a espera…