terça-feira, 14 de maio de 2013

Considerações...


A medida que vamos crescendo vamos sendo educados, ou vão tentando nos educar no sentido do que é bom, do que é certo, do que é correcto…num resumo, vão nos tentando meter dentro da caixa, meter dentro da multidão, sermos mais um, somente mais um. Na realidade trata-se de uma arma, estão a dar-nos uma arma para nos defendermos, alias, antes de nos defendermos, é um escudo para que não nos ataquem, para que cada um de nos seja mais um invisível no meio da massa amorfa e compacta e difusa que se move segundo qualquer horário, qualquer chegada de comboio, partida de metro, entrada no trabalho fila de compras, fila de carros, sempre ordenados, sempre concretos, sempre correctos!!! Sempre como vai a maré também tu deves de ir…é mais fácil, é sempre muito mais simples…
O CARAGO! Não acredites nisso, nunca acredites nisso!!! Rema contra a maré, pensa fora da box! Reage contra a massa amorfa, contra os mil-se-nome com quem te cruzas, se um com nome, afirma o teu nome acima da multidão. Não te limites nem deixes que te limitem, que te castrem que destruam a tua individualidade…afinal tu és tu…der por onde der…  

quarta-feira, 8 de maio de 2013


terça-feira, 7 de maio de 2013

Estrada


Irás partir. Voltar costas, como tantos e tantas outras vezes.
Não vez como longo é o caminho? Como longe a estrada vai? Vês que lá ao fundo a linha do horizonte se junta com o pó da estrada?  Olha como longa é a estrada…tens a certeza que a queres fazer sozinho?
Sim, o caminho é meu, eu irei faze-lo sozinho!
Os caminhos nunca são para serem feitos sozinhos, os teus pés não terão somente que ter a poeira do chão, terão que ter também o conforto das águas correntes.
Seguirei sozinho…
Então não olhes para trás! Faz-te a estrada, faz-te ao teu caminho, mas não olhes para trás! Não fiques com remorsos, não fiques preso ao que deixas! Segue o teu caminho, vai em direcção ao poente, pela estrada longa e cheia de curvas, mas que é a tua estrada…faz-te ao teu caminho, mas peço-te…não olhes para trás! Nunca olhes para trás!
Sim, farei o meu caminho, mas porque não queres que olhe para trás?
Não quero que ao olhares para trás me veja a dois passos de ti…  
Como….?
Seguirás o teu caminho, irás seguir em frente, acumularas sobre ti a poeira do caminho, os teus pés irão sofrer as agruras da estrada, do teu rosto irão cair lagrimas, sulcando a tua cara suja, até que secarão, e nem uma lagrima conseguirás verter.  Quando olhares ao teu lado e vires nada, somente a solidão, nessa altura sei que olharás para trás, e será nesse momento que vais perceber que nunca estiveste sozinho na estrada, que a dois passos de ti estava eu, que se tombasses eu estaria ali para te segurar, para te aliviar as dores do caminho, para aplicar o balsamo sobre as feridas e chagas abertas…nessa altura irias perceberes que alguém estava atrás de ti, que nunca estiveste só no teu caminhos, e perceberias que os caminhos não se fazem sozinhos, mesmo que tenhas pensado que sim, mesmo que te tenha deixado iludir, que tenhas pensado que estiveste a fazer o teu caminho sozinho, que foste o único que comeu o pó da estrada…mas não, longe disso, nessa altura irás perceber que o pó que os teus pés levantavam era comido pela minha boca, por mim que andava somente a dois passos de ti. Percebes agora o que é o caminho? Percebes para onde queres ir? Percebes afinal…?
Sim…percebo…
E mesmo assim queres-te fazer ao caminho? Queres-te fazer a estrada? Queres seguir para longe?
Sim, quero…é o meu caminho…-e olhando para longe, para o poente acrescentou- mas quero que venhas comigo, ao meu lado, não dois passos atras, mas somente a distância de meio braço de mim. Não será jamais o meu caminho, será o nosso caminho,- segurando na minha mão, os olhos brilhando como nunca haviam brilhado – Partes comigo? Vamos juntos até ao poente? Vamos comer juntos o pó da estrada para que seja mais fácil o caminho? Vens comigo?
Sorrindo, apertei a mão, apertei os dedos entre os meus dedos: Sim, partiremos então que o sol vai alto e a estrada…como bela é a estrada.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Estação...


As estações são assim, caso sejam de comboios ou de autocarros, de aviões ou até de barcos. Tendem sempre a ser sítios isolados, solitários, onde uma pessoa se encontra talvez consigo mesmo, ou tao somente só consigo mesmo. Nunca se tem bem a noção se é dia ou noite, se é de manhã ou se já se alcançou a tarde.
Naquela noite, supondo que seria noite, a estação de comboio, supondo que seria uma estação de comboios, estava ainda mais solitária. Deserta era o termo correcto se não contarmos com pombos, ratos e baratas que se escapavam a medida que os meus passos sonoros quebravam o silêncio que cobria a cidade. As linhas paralelas, aquelas longas vigas de ferro, eram ainda mais escuras do que haviam sempre sido, prolongando-se para lá do oásis de luz, luz morta da florescência que somente se pode chamar de luz por se opor as trevas que se estendiam para montante e jusante do assento que eu tomava. Assento frio, como tudo era frio naquela noite, o vento vinha de norte e entrava de rompante levando pelo ar solitárias folhas de jornal velho que com desproposito me vinham bater nas pernas.
Ali estava, com frio, por fora e por dentro, com a certeza que as linhas eram rectas, embora ao meu olhar se assemelhassem a duas grandes curvas, curvavam nos aguçados gumes de um destino ausente, de um futuro que fugia do espaço que era aquela estação….Para trás ficava o escuro passado, para a frente as trevas do futuro. E o vento, esse fustigava cada vez mais, com cada vez mais violência aquela cara, que ficando cada vez mais fria sentia cada vez mais o gelo que lhe feria os olhos que se iam deixando mergulhar em pequenas gotas de água salobra.
estava ali, prostrado, frustrado, perdido…e como alto se ouvia o relógio a passar os segundos que eram longos minutos.
No fundo estações são assim, locais de espera, de longas ou curtas esperas, de esperas de esperança ou de somente espera…
E como negras eram aquelas linhas, paralelas, rectas sem se cruzarem…seguindo, distando a medida certa da bitola, somente a distância de uma bitola, de um metro e qualquer coisa…para sempre condenadas a não se cruzarem.
E o vento trazia o som, o distante som de um comboio que vinha, que surgia do lado do passado, iluminando as linhas que faiscavam pelo forte foco, que estremeciam, vibraram sobre as rodas que freavam a longa composição que irrompia como uma bolha de ar, ar quente.
Parou na minha frente, as portas abriram-se na minha frente, um corredor de luz, de luz viva, de calor…um tapete de luz.
Levantei o olhar, olhei…e não me mexi…
Com um ruido seco as portas fecharam-se, com um baque enorme e ensurdecedor, a luz ficará de novo fria, a máquina apitou, e começou a mexer-se, a andar, lentamente, a ganhar velocidade, levantando o ar, levando consigo o ar quente, relançado o frio sobre o banco onde me sentará. O ruido afastou-se, foi para frente, rumo ao futuro, tornou-se um ruido surdo, afastado, longínquo…
O vento frio voltava, mais forte, o silencio voltava, aconcheguei a velha camisola ao corpo, enrolei-me sobre mim mesmo, deitei-me no banco frio de ferro…e fiquei a espera…     

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Quercus


Lembras-te como pequena era aquela semente? A pequena bolota que trazias no bolso, mas que pegaste como se de um enorme tesouro se tratasse, como a fechaste entre as tuas mãos. Como a protegias naquele dia em que finalmente a aquela casa passou a ser a nossa casa.
Ainda tenho na memória o pequeno buraco que fizemos no chão, de caiu sobre a terra fértil e fofa aquela que era a nossa bolota, de como a tua mão direita certa e a minha esquerda desajeitada taparam aquele pedaço de nós.
E o primeiro rebento que surgiu, que brotou daquele pedaço de terra quando ainda se faziam as obras, e as primeiras folhas verdes brilhavam ao sol quando finalmente nos instalamos.
Quantos sorrisos fizemos para os cada vez mais numerosos rebentos de folhas que a cada ano se multiplicavam. Quantas vezes vieste ter comigo, nas tardes quentes de verão, enquanto eu lia um qualquer livro e o sol desaparecia, como sempre soubeste o que eu detestava o pôr-do-sol, por isso fazias questão de ali estar, ao meu lado como sempre estiveste nos piores momentos, embora só me consiga recordar dos melhores, do longo tempo em que debaixo da enorme copa do Quercus.
E depois de tantos anos, com o chão coberto de novas bolotas prontas a rebentar,  prontas a dar origem a novas arvores, a uma mata, a um bosque perpetuo, aqui estamos nós, os dois, sozinhos, de mão dada, dedos entrelaçados e ao fundo, sobre o mar, o sol lentamente se vais pondo, e tu apertas-me os dedos, como sempre fizeste, para que eu não tenha medo…porque tu me proteges, porque tu me hás de proteger, como a como a copa daquela árvore nos protege nesta tarde, daquele árvore posta em semente pela tua firme mão direita e a minha esquerda sem jeito…e olha, o sol mais uma vez lá se pôs… desaparece em anil sobre as ondas do mar…e tu mantes os teus dedos entrançados aos meus, sentados os dois, cabeça encostadas…e eu perdi o medo, por hoje perdi o medo, porque tu estas aqui, debaixo da nossa árvore, comigo, tu estarás aqui…    

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Uma pergunta....


O que fazias se eu morresse hoje?
Chorarias? Sentirias alguma pena? Deixarias o teu pedestal e virias ao encontro daquilo que eu já não seria? Diz-me, se tens coragem, o que irias fazer se eu morresse hoje? Pegavas no teu cigarro e lançavas baforadas para o ar? Deixavas-te ficar no sofá, olhando para a televisão como se nada fosse? Como se aquele corpo que ontem tinha vida, que ontem podia ser teu, não existisse, seria isso que farias? Diz-me, se me achas digno de saber, sentirias remorsos por tudo aquilo que não me disseste? Irias sofrer por tudo aquilo que ficou preso nas nossas gargantas, por tudo aquilo que ficaria por dizer se eu morresse hoje, sofrerias? Sentirias alguma perda se eu morresse hoje? A tua alma, o éter que te rodeia iria quebrar algum pedaço? Pedirias aconchego na cama, na almofada, no espaço vazio?
Diz-me, se tens coragem, o que fazias se eu morresse hoje?!

Se tu morresses hoje…eu morreria amanhã…

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Não quero que o teu nome seja o novo nome da minha solidão...


Foi isso que te pedi naquela manhã.

Foi isso que logo naquela tarde acabaste por esquecer e, quando por fim, a noite caiu, foi o teu nome que eu disse ao cumprimentar a minha solidão.
Lembrei-me daquela madrugada, em que não estava frio, em que o calor não se notava, em que somente te notei a ti, a partir daí o resto pouco ou nada restava para além da conjugação verbal que nos unia. Eu amo, tu amas, ele ama, nos amamos…

Mas todo o verbo tem um fim, e passamos para o teu pretérito, tu amavas, eu amo…nós amámos…
nunca percebi porque razão não gostava dos pretéritos, já não escola não gostava, na vida pouco adulta que vou tendo percebo a razão…do passado só guardamos más memorias.

E de ti…do teu pretérito futuro, eu já guardo más memorias… e nem presente é…

é o teu nome que eu soletro a noite, por entre os lençóis da minha cama fria. É o teu nome que me acompanha, aqueles passos ao meu lado, a minha mão que é esticada…é por ti que chamo quando estou só…
E o teu nome é o novo nome da minha solidão.

Tanto aviso, tanto alerta, tanto tem juízo…mas é o teu nome que eu sussurro antes de fechar os olhos, é pelo teu nome que eu chamo quando te procuro na minha cama pela manhã, pelo teu corpo, pelo calor que me aqueça…naquele leito, naquela cama onde só posso dizer o teu nome…o novo nome da minha solidão…

Sobre o promontório, é pelo teu nome que eu chamo…é somente o abstracto do teu nome que me acompanha…o novo nome para a minha solidão… e na minha mão, vazia, é o teu nome que passa, é por ti que chamo…já que é esse o novo nome da minha solidão…